Quem nunca recebeu uma mensagem dizendo que havia um problema com algum documento e que era preciso resolver logo? Em ano de eleição, esse tipo de abordagem ganha um ingrediente a mais: o nome da Justiça Eleitoral. E os criminosos sabem bem disso.

No fim de agosto, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) publicou um alerta sobre golpes que se aproveitam da sua imagem. De acordo com o órgão, desde o início do ano foram identificadas mensagens que falavam em supostas pendências eleitorais e levavam as pessoas a páginas muito parecidas com o portal oficial. Nestes casos, a vítima era convencida a informar dados pessoais ou a fazer pagamentos que não devia.

Estamos às vésperas do segundo turno, e o cadastro eleitoral volta a abrir em 3 de novembro. Ou seja, o assunto ainda vai render, e os golpistas costumam acompanhar o calendário de perto.

Cobrança da Justiça Eleitoral: verdadeira ou falsa?

Pode ser uma coisa ou outra, e é justamente isso que torna o golpe eficiente. Regularizar o título é gratuito, mas multas por não ter votado ou por faltar aos trabalhos eleitorais existem de verdade e podem ser pagas por Pix, boleto ou cartão. Para ter uma referência: a multa por ausência às urnas é, em regra, de R$ 3,51 por turno em que o eleitor não votou nem justificou.

Um exemplo recente mostra como os criminosos exploram essa confusão. A dois dias do primeiro turno, a ESET identificou um site que imitava a página do TSE e oferecia uma “consulta de situação eleitoral”. O endereço terminava em “.online”, bem diferente dos domínios oficiais da Justiça Eleitoral, tse.jus.br e justicaeleitoral.jus.br.

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Site falso que se faz passar pelo TSE.

O detalhe que mais chama atenção é que, ao digitar o CPF, a vítima via na tela seu nome completo e o nome da mãe, além de campos mascarados para título, zona e seção. Isso passa uma sensação de legitimidade, como se a pessoa estivesse mesmo em um sistema do governo. Mas bastou testar CPFs diferentes para perceber a farsa: todos apareciam como irregulares e recebiam exatamente a mesma cobrança, de R$ 47,90.

A conta vinha dividida em três itens: R$ 26,00 de “multa por ausência eleitoral”, R$ 14,90 de “encargos legais e administrativos” e R$ 7,00 de “taxa de regularização cadastral”. Nada disso bate com a realidade. A multa cobrada é mais de sete vezes o valor oficial, e taxa de regularização simplesmente não existe, já que o serviço é gratuito. Para apressar o pagamento via Pix, a página ainda ameaçava o eleitor com a perda do direito ao voto e restrições a benefícios públicos.

Quem chegava a abrir o aplicativo do banco encontrava como recebedor uma empresa com sede em Curitiba, e não o Tesouro Nacional. Não foi possível confirmar se essa empresa tem relação com a fraude ou se atua apenas como intermediária de pagamentos, mas uma coisa é certa: o dinheiro não ia para a Justiça Eleitoral.

E a fórmula não é nova. Em abril, o TSE já havia alertado para páginas com a mesma estrutura, com consulta por CPF, lista de débitos e QR Code para pagamento, que na época cobravam R$ 66,80. O golpe se repete e só muda o valor, e pode voltar a circular quando o cadastro reabrir. A análise completa desse site está disponível no post Golpe do falso TSE cobra Pix por débito eleitoral inexistente.

Nesta semana, a fórmula ganhou mais uma versão. O TRE de Pernambuco alertou para mensagens de SMS que avisam que o título está irregular e levam a um site que imita o visual do gov.br. Depois que a vítima digita o CPF, a página mostra nome, data de nascimento e sexo, cobra multas por ausência e uma “taxa de emissão de via alternativa”, de R$ 12 a R$ 14, e ainda exibe um cronômetro para apressar o pagamento. Como lembrou o tribunal, a Justiça Eleitoral não envia links de pagamento por SMS, e-mail ou WhatsApp.

Nesses casos, o caminho certo é sempre o mesmo: quem deve ir atrás da informação é o próprio eleitor, acessando o Autoatendimento Eleitoral ou o aplicativo e-Título. Se a cobrança chegou por mensagem ou apareceu em um anúncio, não use o link que veio junto para “conferir”. Abra o canal oficial por conta própria.

Na hora de pagar via Pix, confira com atenção o nome e o documento do recebedor na tela de confirmação, porque esse é o último momento para perceber que algo está errado. Tem que ser o Tesouro Nacional. Se aparecer o nome de uma pessoa, de uma empresa ou qualquer outro destinatário, pare por ali.

O perfil “oficial” que pedia para instalar um app

Um dos casos citados pelo TSE chama atenção. Um perfil no WhatsApp, com a logomarca do Tribunal, se apresentava como “Departamento de Atendimento ao Cliente” e avisava que eleitores irregulares poderiam perder acesso a serviços bancários e do governo. Para resolver, bastava instalar um aplicativo chamado “Soluciona Pendência”.

Esse departamento não existe, nem no TSE nem em nenhum TRE. E o pedido para instalar um app fora da loja oficial é, por si só, motivo de sobra para desconfiar. Aplicativos distribuídos dessa forma frequentemente escondem malware capaz de roubar senhas de banco, ler mensagens ou até controlar o celular a distância.

Convocação de mesário pelo WhatsApp

Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, esse golpe volta a ganhar força. E a situação é delicada, porque alguns TREs realmente usam WhatsApp e e-mail para falar com mesários. Os criminosos já perceberam isso e passaram a mandar convocações falsas que terminam numa página pedindo dados.

Vale saber como funciona de verdade. Em geral, quem trabalhou no primeiro turno volta a atuar no segundo, e as eventuais trocas, como nomeações e dispensas, são publicadas pelos TREs no Diário da Justiça Eleitoral. Ninguém precisa preencher um formulário recebido por mensagem, fazer um pagamento ou passar senha para “confirmar presença” no dia 25.

Se você recebeu uma convocação e ficou com a pulga atrás da orelha, procure o site do TRE do seu estado ou ligue para o cartório eleitoral. Só não siga o que a própria mensagem manda fazer.

“Regularize seu título agora”

Desconfie. O cadastro eleitoral está fechado desde 7 de maio por causa da preparação das eleições, e só reabre em novembro. Enquanto isso, não dá para tirar o primeiro título, transferir o domicílio ou atualizar dados. Consultas e pagamento de multas continuam funcionando normalmente. Então, se alguém promete fazer agora algo que está suspenso, já sabe.

Justificativa de ausência também virou isca

Quem não votou no primeiro turno tem até 3 de dezembro para justificar a ausência, e quem faltar no segundo turno terá até 8 de janeiro de 2027. Cada turno exige uma justificativa própria, e o serviço é gratuito.

Os golpistas também estão de olho nisso. Páginas falsas que imitam os serviços de justificativa e regularização aparecem nos resultados de busca, pedem nome completo, CPF e data de nascimento e, em alguns casos, cobram uma suposta multa a ser paga na hora. Aparecer no Google não torna um site confiável. Para justificar, use o Autoatendimento Eleitoral, no site do TSE, ou o aplicativo e-Título.

“Mas eles sabiam meu CPF”

Esse é o argumento que mais derruba as defesas das pessoas, e é compreensível. Só que, depois de tantos vazamentos nos últimos anos, nome, CPF e até número do título circulam com facilidade entre criminosos. Ter seus dados certos na mensagem não prova nada. O mesmo vale para logomarca, foto de perfil e o visual caprichado da página. Tudo isso se copia em poucos minutos.

Fora da Justiça Eleitoral

Falsos pedidos de doação

Nem todo golpe da temporada usa o nome do TSE. Nesta semana, circularam mensagens que imitam a campanha de Lula e pedem um Pix de R$ 13 para “mobilizar” eleitores, e apoiadores de Flávio Bolsonaro também receberam mensagens parecidas. Os botões levam a páginas externas que podem capturar dados e dinheiro. Se quiser contribuir com uma campanha, faça isso apenas pelos canais oficiais do partido ou do candidato, e não por links recebidos em mensagens ou grupos.

Deepfakes: desconfie também do que você vê e ouve

O início do segundo turno também foi marcado por vídeos e áudios manipulados de candidatos. Em alguns casos, imagens reais receberam falas criadas por inteligência artificial. Em outros, cortes de vídeo mudaram o sentido do que foi dito. O TSE chegou a determinar a remoção de publicações com esse tipo de conteúdo.

Nesses casos, o objetivo costuma ser desinformar, e não roubar dinheiro. Mas a mesma tecnologia pode servir a golpes: um vídeo ou áudio com a voz de um candidato pedindo um Pix é muito mais convincente do que uma mensagem de texto. Por isso, a regra também vale aqui. Desconfie de vídeos editados, áudios sem fonte e prints sem link para a publicação original, e confira nos perfis oficiais do candidato ou em agências de checagem antes de compartilhar e, principalmente, antes de pagar qualquer coisa.

Sinais que devem acender o alerta

De modo geral, vale desconfiar quando a mensagem:

  • Pressiona para que você pague ou faça algo imediatamente.
  • Ameaça bloquear serviços ou fala em consequências graves.
  • Cobra por um serviço que deveria ser gratuito ou inclui taxas e encargos que não existem.
  • Pede senha ou dados do banco.
  • Já vem com chave Pix, boleto ou link de pagamento.
  • Pede para instalar um aplicativo que você não conhece.
  • Leva a uma página que imita o visual da Justiça Eleitoral.
  • Tenta te convencer a não confirmar a informação em outro lugar.

Os alertas que o TSE publicou ao longo do ano mostram sempre a mesma estratégia: ameaças de bloqueio e problemas legais para que a pessoa aja por impulso. Pressa e medo são as ferramentas preferidas de quem aplica golpes.

Na prática, o que fazer

O conselho mais útil é também o mais simples: saia da mensagem. Feche o WhatsApp, o SMS ou o e-mail e acesse você mesmo o Portal do TSE, o e-Título ou o site do TRE do seu estado. Assim você corta o golpe pela raiz.

Também ajuda olhar com calma o endereço do site. Os portais da Justiça Eleitoral terminam em .jus.br, e qualquer variação estranha é sinal de problema. O e-Título, por sua vez, deve ser baixado só pela Google Play ou pela App Store. E ter uma solução de segurança com proteção contra phishing no celular e no computador dá uma camada extra, bloqueando sites falsos antes mesmo de você digitar qualquer coisa.

Se você já clicou, pagou ou informou dados, não perca tempo. Se fez um Pix, procure seu banco pelos canais oficiais e peça a abertura do Mecanismo Especial de Devolução (MED). O prazo é curto, e a chance de recuperar o dinheiro diminui com o tempo. Troque as senhas que possam ter sido expostas e registre um boletim de ocorrência, o que pode ser feito pela delegacia eletrônica da Polícia Civil do seu estado. Se instalou algum aplicativo suspeito, remova-o e faça uma varredura completa no aparelho.

Depois disso, fique de olho no uso dos seus dados. Se os golpistas já tinham seu nome, CPF e nome da mãe, essas informações podem reaparecer em outras abordagens. Desconfie de contatos inesperados que usem esses dados para ganhar sua confiança e acompanhe se há contas, empréstimos ou cadastros abertos em seu nome. O Registrato, do Banco Central, mostra gratuitamente os relacionamentos bancários e empréstimos vinculados ao seu CPF.

No fim das contas, a melhor defesa continua sendo desconfiar um pouco antes de clicar. Uma mensagem com cara de oficial não é garantia de nada, e conferir pelos canais certos leva só alguns minutos.