Em 14 de julho de 2026, o FBI prendeu Zyaire Dontaevious Zamarion Wilkins, acusado de distribuir malware em jogos da plataforma Steam, com os quais infectou cerca de 8 mil dispositivos e roubou US$ 220 mil (cerca de R$ 1,2 milhão) em criptoativos.
Embora a Steam conte com processos de revisão e controles que reduzem os riscos em comparação com sites de download duvidosos ou softwares piratas, ela não é infalível. Os cibercriminosos tentam se infiltrar nesses ecossistemas porque sabem que ali contam com um recurso muito valioso: a confiança dos usuários.
A seguir, analisaremos os detalhes dessa operação, como um jogo comprometido consegue superar os controles oficiais e quais sinais podem ajudar um usuário a identificar um jogo suspeito antes de instalá-lo.
É seguro baixar jogos em plataformas como a Steam? Qual é o papel da confiança do usuário nesse tipo de golpe?
Os detalhes da operação
Zyaire Dontaevious Zamarion Wilkins foi preso, acusado de distribuir um infostealer por meio de jogos publicados na Steam para roubar dados de logins, extrair senhas, obter tokens, dados de login e informações de carteiras de criptomoedas, um dos principais alvos da campanha.
Durante os quase dois anos de duração da operação, entre maio de 2024 e fevereiro de 2026, o cibercriminoso infectou cerca de 8 mil computadores e roubou US$ 220 mil (cerca de R$ 1,2 milhão) em criptoativos, segundo a denúncia criminal. Para isso, utilizava chatbots que identificavam usuários com grandes quantidades de criptomoedas, de acordo com documentos judiciais.
Entre os jogos infectados identificados pelo FBI e promovidos em plataformas como Discord, Telegram, X e outras comunidades de gamers estão BlockBlasters, Chemia, Dashverse, DashFPS, Lampy, Lunara, PirateFi e Tokenova.
Embora ainda existam detalhes desconhecidos, casos semelhantes permitem inferir como o golpe funcionava. Depois que o jogo infectado passava pelas verificações iniciais e era publicado, ele era promovido, os usuários faziam o download e o malware era executado junto com o jogo.
Um aspecto particular desse caso foi a colaboração das próprias vítimas. Após identificar a campanha e remover os jogos da Steam, o FBI fez um apelo público para que as pessoas que tivessem baixado algum dos títulos afetados entrassem em contato com a agência e fornecessem informações.
O compartilhamento de evidências facilitou a reconstrução do funcionamento da operação, permitiu relacionar os diferentes jogos utilizados como isca e fortaleceu as provas que levaram, posteriormente, à identificação e à prisão de Zyaire Dontaevious Zamarion Wilkins.
Mas, para além dos detalhes dessa investigação, o caso evidencia um desafio enfrentado por todas as lojas oficiais: nenhum processo de revisão é realmente infalível.
Como jogos infectados conseguem superar os controles das plataformas oficiais?
Em geral, os cibercriminosos tentam publicar jogos que aparentam ser legítimos para passar pelas verificações iniciais. Em alguns casos, o comportamento malicioso só é introduzido por meio de atualizações posteriores, o que torna a detecção precoce ainda mais difícil.
Os processos de revisão das plataformas normalmente não equivalem a uma auditoria especializada em segurança digital. Em outras palavras, as plataformas verificam se o jogo funciona corretamente, se não viola as políticas de conteúdo, se pode ser instalado sem problemas e se não apresenta falhas evidentes. Existe uma revisão, mas ela não pode ser comparada a uma auditoria de segurança.
Esse desafio não é exclusivo das lojas de aplicativos e jogos. Em 2025, a Apple removeu quase 59 mil aplicativos, incluindo alguns jogos, que haviam sido aprovados inicialmente, mas que posteriormente tiveram seu software modificado com o objetivo de cometer fraudes financeiras. Isso não significa que a App Store seja insegura, mas sim que nenhum processo de revisão é perfeito.
E esse é o ponto central: em muitos casos, os cibercriminosos nem sequer precisam comprometer a plataforma oficial; basta explorar a confiança que as pessoas depositam nessas plataformas. Nesse cenário, o componente técnico se combina com a engenharia social: os cibercriminosos não precisam apenas distribuir malware, mas também convencer as vítimas de que estão baixando um jogo legítimo.
Em resumo, as plataformas oficiais continuam sendo o local mais seguro para baixar qualquer tipo de software. O problema é que os cibercriminosos já entenderam isso e procuram tirar proveito dessa confiança. Essa realidade exige que os usuários adotem precauções adicionais.
Como identificar jogos infectados em plataformas oficiais?
Baixar jogos exclusivamente de fontes oficiais continua sendo a regra de ouro: qualquer download de jogos ou demonstrações deve ser feito por meio de lojas oficiais.
No entanto, o que foi analisado neste artigo mostra que os usuários também devem adotar suas próprias medidas de verificação antes de realizar um download, mesmo quando ele é feito em plataformas oficiais. Entre elas:
- Verifique comentários e avaliações. Uma boa medida preventiva é analisar comentários e avaliações da comunidade, já que os próprios usuários costumam relatar esse tipo de problema rapidamente.
- Desconfie de permissões excessivas. Se, durante a instalação, um jogo solicitar a inclusão de drivers, serviços ou componentes adicionais inesperados, vale a pena interromper o processo e investigar por que eles são necessários, sempre verificando se realmente são fornecidos pelo desenvolvedor legítimo. Além disso, é importante ficar atento a processos incomuns que possam estar sendo executados em segundo plano.
- Evite cheats, mods e patches não oficiais. Muitas vezes, o desejo de obter mods, hacks ou versões "crackeadas" de jogos pode falar mais alto do que o senso crítico. Vale lembrar que, se algo promete vantagens ilimitadas em troca da instalação de um programa suspeito, provavelmente se trata de um golpe.
- Mantenha o sistema e as soluções de segurança atualizados. Manter o sistema operacional atualizado e contar com uma solução de segurança ajuda a detectar comportamentos maliciosos, mesmo quando um software consegue superar os controles iniciais das plataformas oficiais.
O que este caso nos ensina
Casos como este não devem levar os usuários a abandonar as plataformas oficiais, mas sim a utilizá-las com uma postura mais crítica. Baixar softwares de lojas oficiais continua sendo a opção mais recomendada, mas já não basta presumir que tudo o que é publicado nessas plataformas seja necessariamente seguro e confiável.
A combinação de plataformas oficiais, usuários com senso crítico e ferramentas de segurança continua sendo a melhor defesa contra campanhas como essa.




