A mudança de tom e postura da administração Trump em relação aos seus aliados tradicionais gerou, compreensivelmente, preocupação em muitos países, levantando dúvidas sobre a confiabilidade dos EUA e aumentando o receio em relação à dependência da tecnologia norte-americana. Muitos já estavam acostumados com o discurso frequentemente agressivo de China e Rússia, além das demonstrações de poder econômico e militar desses países. No entanto, ver a nação mais poderosa do mundo e referência da democracia liberal recorrer a táticas semelhantes contra seus próprios aliados foi, sem dúvida, um grande sinal de alerta.
O avanço da soberania tecnológica na Europa
Na Europa, os apelos por uma maior soberania tecnológica, ou seja, a capacidade de escolher e agir de forma independente, autônoma e segura, tornaram-se praticamente ensurdecedores. Os debates, muitas vezes bastante filosóficos, sobre autonomia estratégica e soberania já vêm ganhando espaço há alguns anos nas discussões sobre defesa e energia, especialmente após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022. No entanto, a preocupação com uma dependência excessiva da China como mercado, fornecedora de bens e de minerais críticos já vinha crescendo muito antes disso.
No último ano, esse conceito passou a abranger uma ampla gama de políticas industriais e econômicas, incluindo as tecnologias digitais. As ideias conceituais começaram a sair do papel e ganhar forma em propostas e iniciativas concretas, que hoje já resultam em diferentes medidas legislativas. Ainda assim, reduzir dependências construídas ao longo de décadas não será uma tarefa simples. Será necessário encontrar fontes alternativas de tecnologias e materiais críticos ou, idealmente, desenvolvê-los localmente, o que exige uma estratégia complexa para fortalecer o ecossistema de inovação tecnológica na Europa. Isso inclui, no mínimo, facilitar investimentos em infraestrutura digital, atrair e reter talentos e apoiar empresas locais de tecnologia, criando condições para que elas cresçam e ganhem escala.
As empresas norte-americanas dominam o setor de tecnologia, e os lucros obtidos com suas operações internacionais ajudam a consolidar ainda mais essa posição, frequentemente por meio de investimentos em pesquisa e desenvolvimento, grandes orçamentos de marketing e aquisições, incluindo talentos e startups promissoras. No setor de tecnologia, quem investe primeiro e em larga escala costuma manter a liderança, o que coloca a Europa diante de um desafio duplo: estimular a concorrência sem fortalecer ainda mais os gigantes já dominantes.
Nesse cenário, os Estados Unidos também têm atuado rapidamente para defender sua indústria de tecnologia em outros países, especialmente diante do que consideram tentativas de excesso de regulação ou de redução do superávit norte-americano no setor de serviços. A adoção, por países ou blocos como a União Europeia, de abordagens semelhantes às utilizadas pelos EUA no comércio de bens, agora aplicadas ao setor de serviços, não é bem vista em Washington, e as medidas de proteção seguem em vigor.
O cenário tecnológico está cada vez mais politizado, e as empresas de tecnologia dos Estados Unidos não estão imunes às crescentes pressões internas. Um exemplo disso ocorreu quando um representante da Microsoft reconheceu, sob juramento perante o Senado francês, que a empresa não poderia garantir total soberania digital caso autoridades norte-americanas solicitassem acesso a dados armazenados no exterior, conforme permitido pela CLOUD Act. Também houve relatos de que a Microsoft suspendeu serviços do procurador-chefe do Tribunal Penal Internacional após a abertura de uma investigação sobre ações de autoridades israelenses em Gaza, em cumprimento a sanções impostas pelos EUA. Além disso, rumores sobre possíveis backdoors para agências de inteligência e mecanismos de desligamento remoto, conhecidos como “kill switches”, aumentam ainda mais as preocupações.
Avaliação de riscos
Mas, é claro, não são apenas os Estados Unidos que utilizam o comércio como ferramenta geopolítica. Em todos os continentes, inclusive na Europa, há países dispostos ou inclinados a recorrer a esse tipo de estratégia, o que torna essencial considerar também o risco político das alternativas disponíveis. Ao longo do último ano, diferentes grupos de países da União Europeia passaram a se alinhar em torno de visões mais ou menos políticas sobre soberania tecnológica. A ênfase no controle operacional, técnico e jurídico da tecnologia parece entrar em conflito com uma abordagem focada principalmente no país de origem ou na localização geográfica da infraestrutura. Ao mesmo tempo, o temor de que um eventual “kill switch” possa ser usado contra a Europa em um cenário de confronto alimenta ainda mais as discussões políticas sobre soberania digital, o que pode comprometer a qualidade de um debate baseado em evidências e sustentado por aspectos jurídicos e técnicos concretos.
Outro desafio surge das diferenças culturais e regulatórias na governança tecnológica. Apesar de políticas como “America First”, os Estados Unidos costumam priorizar a abertura de mercado e a competitividade internacional, enquanto a União Europeia coloca maior ênfase na proteção do consumidor, na segurança pública, na concorrência e, agora, também na soberania digital. Há quem tema que adotar tecnologia norte-americana signifique aceitar uma abordagem que não está alinhada aos seus próprios valores.
A soberania digital vem ganhando espaço além dos círculos políticos e regulatórios. Na sociedade civil e em narrativas nacionalistas, ela é vista como uma forma de fortalecer um marco regulatório digital europeu capaz de oferecer as salvaguardas tradicionalmente associadas ao mercado europeu. Os defensores dessa ideia destacam a jurisdição legal sob a qual a tecnologia opera, o que também traz o risco de deslocar o debate para um campo mais ideológico, em detrimento da inovação. Sem um nível razoável de abertura, tecnologias desenvolvidas localmente terão dificuldades para prosperar.
O uso político da tecnologia não é a única preocupação. O incidente envolvendo a CrowdStrike em 2024 afetou diversas grandes empresas, incluindo companhias do setor de aviação. Sistemas de TI podem falhar e também são vulneráveis a ataques. Existe um fluxo constante de vulnerabilidades exploráveis, incluindo falhas zero-day. É nesse contexto que o foco crescente da União Europeia na segurança da cadeia de suprimentos de TIC ganha relevância, complementando iniciativas voltadas especificamente à soberania tecnológica. O marco proposto para identificar fornecedores de alto risco nas cadeias de suprimentos de TIC, previsto na revisão da Lei de Cibersegurança europeia, busca estabelecer uma metodologia abrangente que combine fatores políticos, jurídicos e técnicos para excluir fornecedores considerados de alto risco. A proposta pretende ampliar o controle e a jurisdição europeia sobre cadeias críticas de fornecimento e, ao mesmo tempo, abrir espaço para o crescimento de alternativas europeias capazes de substituir fornecedores excluídos.
Como resposta à crescente demanda global por soberania tecnológica nacional e proteção da competitividade local, diversas empresas de tecnologia dos EUA começaram a oferecer soluções “soberanas” adaptadas a jurisdições estrangeiras. Embora essas iniciativas, como as implementadas na Europa, tenham como objetivo responder a preocupações relacionadas à governança de dados e à autonomia operacional, alguns analistas apontam que esses modelos ainda dependem fortemente da infraestrutura norte-americana, dos marcos legais dos EUA e da supervisão corporativa das matrizes. Críticos, incluindo muitos membros do Parlamento Europeu, chamam esse fenômeno de “tech sovereignty washing”. Questionamentos semelhantes também recaem sobre determinados fornecedores locais que promovem seus serviços como soluções soberanas, apesar de continuarem dependentes de tecnologias de origem norte-americana no núcleo de suas plataformas, o que gera dúvidas sobre o nível real de independência oferecido.
Embora as críticas atualmente estejam concentradas nos Estados Unidos e na China, também é importante reconhecer que as relações entre países podem mudar ao longo do tempo. Fazer parte de um mesmo bloco, como a União Europeia, ASEAN ou União Africana, não garante que um membro não possa usar influência tecnológica contra outro durante disputas políticas ou econômicas. Lideranças e prioridades políticas mudam rapidamente e, com elas, também mudam as dinâmicas de confiança e cooperação. Alguns podem apontar marcos legais e contratos como garantias, mas, na prática, esses instrumentos podem ter pouco peso quando Estados nacionais decidem exercer sua própria influência jurídica sobre empresas locais ou sobre aquelas que desejam operar em seus mercados. O grande desafio para os formuladores de políticas públicas é transformar o discurso de apoio à soberania tecnológica e à independência digital em ações concretas e efetivas.
Ciberdefesas confiáveis feitas na Europa
Na área de cibersegurança, existem alternativas confiáveis: a ESET é um exemplo sólido, embora não seja a única. Muitas empresas europeias vêm trabalhando para competir em nível global. No fim das contas, as organizações precisam entender e reduzir seus riscos de exposição, adotando soluções confiáveis que se adequem a cada necessidade e garantam conformidade rigorosa com marcos de proteção de dados, como a LGPD, no Brasil, ou a GDPR, na Europa.
Em toda a União Europeia, também cresce o debate sobre a adaptação dos processos de compras públicas e dos mecanismos de financiamento estatal para favorecer essas alternativas. Ampliar a contratação pública, em vez de depender apenas de subsídios, pode ser uma maneira eficiente de impulsionar o crescimento das empresas e reduzir custos para os contribuintes. A troca de fornecedores também deveria ser mais simples, por meio de uma maior interoperabilidade integrada, reduzindo dependências técnicas e custos de migração. A Organização Europeia de Cibersegurança, European Cyber Security Organisation, vem defendendo uma estratégia industrial específica para o setor de cibersegurança, devido à sua importância estratégica. Agora, a expectativa está voltada para os detalhes do “Pacote de Soberania Tecnológica” da Comissão Europeia, previsto para o fim de maio, além de uma possível revisão das regras de contratação pública dentro da legislação correspondente. A expectativa é que essas medidas tragam ações concretas, realistas e, idealmente, práticas para impulsionar e ampliar a escala das alternativas europeias.
O mais importante é encontrar o equilíbrio certo entre fatores políticos, que mudam constantemente, e critérios técnicos objetivos ao definir o que realmente significa uma solução “feita na Europa”. Soberania não deve se limitar à origem geográfica de um fornecedor. É preciso dar mais peso a indicadores objetivos que mostrem como uma solução garante autonomia operacional e proteção jurídica contra jurisdições fora da União Europeia. Por fim, diante da complexidade do desafio e do tamanho da lacuna que a UE pretende reduzir, também é necessário ter uma visão realista sobre prazos e sobre determinados tipos de tecnologia em que alcançar soberania total dificilmente será possível no curto ou até no médio prazo. Nesses casos, contar com uma proporção razoável de componentes fabricados na UE dentro do produto final já seria um passo importante para ampliar gradualmente a capacidade interna. Isso também poderia ser combinado com uma avaliação das funções críticas do produto, que deveriam se basear, ou ao menos majoritariamente, em tecnologia desenvolvida na própria União Europeia.
O setor privado também tem um papel fundamental ao considerar soberania tecnológica, riscos geopolíticos e vulnerabilidades da cadeia de suprimentos em suas decisões de compra. Se as empresas também se alinharem a esse objetivo, a adoção de alternativas e o impacto gerado serão amplamente perceptíveis. Ainda assim, existe o risco de que o apoio fique concentrado em apenas uma ou duas empresas nacionais ou regionais, o que seria um erro capaz de prejudicar o próprio setor. Uma concorrência saudável estimula preços mais competitivos, maior inovação e reduz a vulnerabilidade estratégica caso uma única empresa enfrente problemas ou deixe de operar.
O cenário geopolítico mudou de forma significativa. Um rompimento total com a tecnologia dos Estados Unidos não é realista nem necessário, mas o contexto atual exige que países e empresas reavaliem suas relações e dependências. Riscos que, há poucos anos, praticamente não eram considerados agora precisam ser reconhecidos, compreendidos, incorporados de forma transversal e mitigados de maneira ativa.




