A IA está transformando setores tão diversos quanto saúde, marketing e atendimento ao consumidor. Agora é a vez da educação. No Brasil, escolas e instituições de ensino já discutem como utilizar ferramentas de IA para personalizar atividades, apoiar professores e oferecer novas formas de aprender.
O Ministério da Educação (MEC) lançou, em março de 2026, o Referencial para o Uso e Desenvolvimento Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação. Em paralelo a isso, o Conselho Nacional de Educação (CNE) vem conduzindo estudos e consultas para a elaboração de diretrizes nacionais sobre o uso de IA na educação.
Para pais e mães, essas ferramentas podem representar uma oportunidade de oferecer apoio adicional aos filhos nos estudos. Mas, assim como acontece com qualquer tecnologia baseada em IA, existem benefícios e riscos que precisam ser considerados.
A dependência excessiva, a redução do esforço cognitivo e o uso da IA para simplesmente fazer tarefas no lugar do estudante estão entre as principais preocupações. Também existem questões importantes relacionadas à segurança e à privacidade, especialmente quando crianças e adolescentes utilizam chatbots capazes de manter conversas, armazenar informações e adaptar suas respostas com base no comportamento do usuário.
O mercado de tutores de IA cresce rapidamente
O mercado de ferramentas de tutoria baseadas em IA está em plena expansão. Segundo uma estimativa da Grand View Research (GVR), empresa internacional de pesquisa de mercado e consultoria, ele passará de cerca de US$ 2 bilhões (cerca de R$ 10,9 bilhões) para mais de US$ 17,7 bilhões (cerca de R$ 96,8 bilhões) entre 2025 e 2033.
O governo britânico já convidou empresas de tecnologia educacional (edtech) e de IA a desenvolver ferramentas para as salas de aula. Segundo o governo, até 450 mil estudantes em situação de vulnerabilidade poderiam se beneficiar, destacando que a IA poderia ajudar famílias que não podem arcar com os custos de tutores particulares. Nos Estados Unidos, a situação varia de acordo com o distrito, mas a tendência geral é semelhante, com empresas de IA e tecnologia introduzindo ferramentas especializadas para estudantes e professores.
O mercado está evoluindo rapidamente. Hoje, é possível encontrar diversos tipos de ferramentas de tutoria com IA para comprar e utilizar. Na verdade, o termo “tutor de IA” se aplica a uma variedade surpreendentemente ampla de produtos. Alguns são pouco mais do que chatbots de uso geral com um rótulo educacional, enquanto outros são sistemas de aprendizagem estruturados com base em um plano de ensino.
No nível mais básico do mercado estão os chatbots simples e assistentes de IA. Eles podem resumir informações e responder a perguntas gerais, mas não necessariamente oferecem muito mais valor do que isso. Na verdade, podem acabar respondendo às perguntas no lugar de seus usuários. Uma opção mais sofisticada é um chatbot desenvolvido especificamente para o ensino. Eles são programados para não responder diretamente às perguntas, mas oferecer tutoria com base no método socrático.
Mais avançados ainda são os Sistemas Inteligentes de Tutoria (ITS, na sigla em inglês), que oferecem um currículo predefinido. Esses sistemas apoiam a aprendizagem fornecendo pistas quando os estudantes não têm certeza de uma resposta e tornam praticamente impossível exibir conteúdo inadequado.
Os tutores de IA realmente funcionam?
Ainda não existe um consenso definitivo sobre se tudo isso funciona. As evidências são promissoras em alguns casos, mas não parecem respaldar as afirmações gerais de que os tutores de IA melhorarão a aprendizagem em qualquer contexto. Em alguns casos, a tecnologia pode até estar piorando as coisas. Em um estudo recente realizado no Reino Unido, dois terços dos professores afirmaram ter observado uma diminuição nas habilidades de redação e resolução de problemas dos estudantes devido ao uso da IA. Outro estudo identifica “uma correlação negativa significativa entre o uso frequente de ferramentas de IA e as capacidades de pensamento crítico”. Também aponta que o uso da IA para tutoria “pode diminuir inadvertidamente o envolvimento dos usuários em processos de pensamento profundo e reflexivo”.
Esse é um dos maiores riscos associados ao incentivo do uso de ferramentas de IA por crianças: se a IA fornecer respostas rápido demais, ou pelo menos tornar o processo fácil demais para o estudante, ele poderá desenvolver uma preguiça cognitiva prejudicial a longo prazo.
Também existem outros riscos psicossociais potenciais: depositar confiança demais em tutores de IA que soam confiantes pode fazer com que as crianças acreditem mais facilmente nas alucinações da IA. Elas podem até chegar a depender deles como se fossem amigos, o que poderia afetar o desenvolvimento de vínculos emocionais com seus pares. Além disso, a IA é uma professora ruim em muitos aspectos: pode conhecer a “resposta” para uma pergunta, mas não ter a capacidade de lidar com as frustrações presentes no processo de aprendizagem. A empatia e as habilidades interpessoais de um professor humano são muito difíceis, se não impossíveis, de imitar para uma máquina.
Por isso, uma pergunta importante é como a ferramenta inclui o ser humano no processo de aprendizagem. Ela pede ao estudante que mostre seu raciocínio, tente resolver um problema e responda ao feedback? Ou simplesmente torna mais rápida a conclusão da tarefa enquanto realiza silenciosamente a maior parte do trabalho intelectual?
Riscos de segurança e privacidade
Há outros aspectos que seria importante considerar. Para quem utiliza chatbots sem restrições e ferramentas semelhantes, existe o risco de que as conversas evoluam para temas inadequados para a idade. Um tutor de IA também pode coletar muito mais do que apenas as respostas e, dependendo do produto, pode armazenar instruções, tarefas escolares, dados de desempenho, interesses, informações da conta, identificadores do dispositivo e gravações de voz. Tudo o que for compartilhado com o modelo poderá ser utilizado para fins de treinamento e possivelmente exposto a outros usuários. Além disso, poderá ser compartilhado com anunciantes e outros terceiros.
Isso não representa apenas um risco à privacidade; também pode se tornar um grave problema de segurança caso o provedor do modelo ou algum desses terceiros de confiança que armazenam os dados sofra um vazamento de dados. Se for uma ferramenta ativada por voz, o provedor terá dados biométricos que são especialmente valiosos caso cibercriminosos consigam vinculá-los a uma identidade.
Nesse contexto, surgem várias perguntas para os pais:
- A criança tem idade suficiente para utilizar o serviço de acordo com seus termos de uso?
- Quais informações são coletadas, por quê e por quanto tempo?
- As conversas são utilizadas para treinar ou aprimorar modelos de IA?
- Um dos pais pode acessar as informações de seu filho e excluí-las?
- Quais provedores de serviços ou outras instituições recebem esses dados?
- O produto exibe publicidade ou utiliza os dados para criar perfis?
Por fim, existe o risco de injeção de prompts (prompt injection). Isso ocorre quando as ferramentas de IA são enganadas para ignorar seus mecanismos de segurança e exibir conteúdo não confiável. Seu filho ou filha pode adquirir os conhecimentos necessários para fazer isso e, assim, acessar material inadequado para sua idade. Ou um cibercriminoso pode ocultar instruções em páginas da web legítimas para que, quando a IA interagir com elas, direcione o usuário para um site de phishing ou realize alguma outra ação maliciosa.
Algumas precauções para pais e mães
Pais e mães têm muito em que pensar. Primeiro, quais são as diferenças entre um simples companheiro de IA e um Sistema Inteligente de Tutoria (ITS). O ideal é procurar ferramentas que orientem o processo de aprendizagem, em vez de se limitarem a fornecer respostas.
Também vale a pena considerar o seguinte:
- Optar por ferramentas que estejam em conformidade com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), a legislação brasileira de proteção de dados, e, se a ferramenta for internacional, verificar também a conformidade com normas como COPPA, CCPA ou GDPR. Isso significa que ela não compartilhará os dados do seu filho com o mecanismo de IA subjacente.
- Optar por uma ferramenta aprovada pela escola do seu filho ou respaldada por evidências educacionais.
- Ler as informações sobre privacidade, especialmente as seções relacionadas ao treinamento de modelos, à retenção de dados, à publicidade e aos provedores externos.
- Utilizar a ferramenta junto com seu filho. Por melhor que seja a IA, ele provavelmente aprenderá mais se estudar acompanhado por uma pessoa.
- Ensinar as crianças a nunca compartilhar informações pessoais com a IA e a identificar alucinações. Isso será útil quando elas utilizarem IA em etapas posteriores de suas vidas.
- Conversar com seus filhos para saber como eles se sentem em relação à IA e garantir que compreendam que ela não tem capacidade de sentir emoções.
- Explicar que o tutor pode parecer confiante mesmo quando está errado. Respostas importantes devem ser verificadas com professores, livros didáticos ou outras fontes confiáveis.
- Ativar qualquer configuração adequada à idade, se disponível.
- Limitar o "tempo de IA" diário, assim como é feito com o tempo de tela.
- Verificar o histórico de prompts do seu filho para garantir que ele esteja utilizando a ferramenta de maneira correta e segura.
A tecnologia está amadurecendo em alta velocidade e novas opções surgem constantemente no mercado. Por isso, se você tiver interesse em experimentar tutores de IA, procure manter-se atualizado sobre as alternativas disponíveis. E lembre-se de que eles podem não ser um substituto para a aprendizagem tradicional fora do ambiente digital.
No Brasil, essa discussão está apenas começando a ganhar uma estrutura mais clara. O avanço das políticas públicas, das orientações do MEC e do debate no CNE mostra que a questão não é mais simplesmente se a IA estará presente na educação, mas como ela será utilizada de maneira segura, responsável e pedagogicamente adequada.




