Para o bem ou para o mal, o mundo digital, em muitos aspectos, se assemelha ao seu equivalente físico. Infelizmente, isso significa que ele às vezes possibilita e até intensifica os mesmos comportamentos nocivos que frequentemente vemos fora da internet.

De acordo com um estudo da Microsoft de 2023, realizado em 17 países, o "assédio e abuso cibernético" é a maior preocupação dos pais em todo o mundo, ocupando em média 39% dos entrevistados.

Se não for combatido, esse tipo de comportamento pode afetar de forma significativa a saúde mental e até o bem-estar físico das crianças. Em casos isolados, já resultou em consequências ainda mais graves. Por isso, é fundamental que o retorno às aulas neste segundo semestre, iniciado em agosto, não dê origem a uma nova onda de comportamentos inaceitáveis na internet.

Novo semestre, velhos problemas?

O estudo da Microsoft mencionado indica que os pais estão um pouco mais preocupados com o cyberbullying do que com o risco de exploração sexual infantil, desinformação ou ameaças de violência física. Isso está de acordo com uma pesquisa do Pew Research Center, que aponta que cerca de metade dos adolescentes nos Estados Unidos já sofreu algum tipo de assédio on-line, sendo as meninas mais velhas as mais vulneráveis. O cyberbullying pode se manifestar de várias formas, desde xingamentos e espalhar boatos falsos, até o compartilhamento de imagens explícitas (possivelmente da própria vítima) e ameaças físicas.

Essas situações tendem a se intensificar no volta às aulas, quando agressores podem tentar afirmar domínio sobre os colegas. Pais e escolas muitas vezes estão focados em outras questões no começo do semestre, permitindo que problemas potencialmente graves passem despercebidos. Nesse contexto, é essencial que saibamos identificar os sinais de alerta do cyberbullying antes que a situação saia do controle.

Como saber se meu filho está sofrendo bullying on-line?

Fazer com que seu filho se abra sobre suas experiências é o primeiro e, muitas vezes, o mais difícil passo para enfrentar o cyberbullying. Ele pode sentir vergonha de contar ou ter medo de que a situação piore. Por isso, fique atento a mudanças repentinas de comportamento que possam indicar que algo não está certo.

Entre os sinais mais comuns estão alterações de humor incomuns, baixa autoestima, desinteresse por hobbies, mudanças significativas no tempo de uso de telas (mais ou menos), evitar a escola ou encontros sociais, e queda no desempenho escolar. Seu filho também pode parecer cansado e alterar hábitos alimentares.

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Boas práticas para lidar com o cyberbullying

Manter as linhas de comunicação abertas pode ser mais fácil de dizer do que fazer, mas sem dúvida é a atitude mais positiva que você pode adotar. A ansiedade e o receio prosperam nos espaços silenciosos de nossas vidas. É fundamental que seus filhos e filhas saibam que podem procurar você para qualquer problema, sem medo de julgamento ou represálias.

Por isso, muitas vezes é melhor não se intrometer demais na vida pessoal deles, a menos que haja motivos para acreditar que algo sério está acontecendo. Perguntas abertas como "como estão as coisas?" costumam funcionar melhor do que "você está sendo vítima de bullying?". Procure também um momento e lugar onde possam conversar sem serem ouvidos. A vergonha é uma emoção intensa entre adolescentes e um grande obstáculo para conversas honestas.

Há ainda medidas mais proativas que você pode tomar para reduzir o risco de cyberbullying. Converse com seus filhos sobre privacidade e segurança on-line. Dedique tempo para entender quais aplicativos eles usam e verifique se as configurações são adequadas para a idade e com privacidade reforçada. Certifique-se de que compreendam os riscos das redes sociais e plataformas de jogos, assim como ameaças como sextorsão e deepfakes. É importante que desenvolvam um senso crítico saudável em relação a qualquer pessoa com quem interajam on-line, especialmente se nunca se encontraram pessoalmente. Solicitações de amizade de estranhos devem ser rejeitadas imediatamente. Nesse contexto, pode ser útil saber exatamente quem são os amigos dos seus filhos e filhas, tanto on-line quanto off-line.

Uma opção mais prática é ajustar as configurações do smartphone para limitar o acesso a determinados conteúdos e o tempo de tela, ou instalar softwares de monitoramento parental. Se optar por isso, explique antes ao seu filho ou filha o motivo da medida. Sem essa compreensão, um adolescente determinado pode contornar facilmente as restrições.

Cenário mais grave

Se você descobrir que seu filho ou filha está sofrendo bullying on-line, não entre em pânico. Converse de forma calma, descubra exatamente o que está acontecendo e como isso está afetando seus sentimentos. Evite reagir de forma exagerada. O que você deve fazer é mostrar como bloquear o agressor, tirar prints e guardar todas as evidências. Depois, reporte o incidente às plataformas on-line relevantes e, se necessário, agende uma reunião com a escola.

Infelizmente, o bullying faz parte da vida de muitas crianças. Com o acesso a dispositivos móveis, os agressores conseguem invadir o ambiente doméstico de maneira mais intensa do que antes. Mas você também conta com ferramentas poderosas: empatia, paciência, conhecimento tecnológico e amor.

Fique atento. Observe pelo que seus filhos estão passando. Dê espaço e ofereça apoio. Ensine-os a usar e configurar a tecnologia de forma adequada. Esteja presente, com um plano e um abraço, caso a situação se agrave.