O que devemos ter em conta antes de concordar com uma política de privacidade?

O uso de serviços em troca de nossos dados se tornou algo menos aceitável quando passamos a pensar nas consequências da coleta e do uso de nossas informações pessoais.

O uso de serviços em troca de nossos dados se tornou algo menos aceitável quando passamos a pensar nas consequências da coleta e do uso de nossas informações pessoais.

A campainha da sua casa toca, você responde, e um representante de uma grande empresa aparece na sua porta oferecendo a possibilidade de usar um serviço de forma gratuita – algo que pode ser útil e conveniente. Para usar esse serviço, o representante pede apenas que você marque um “x” em um quadrado que está em uma folha de papel. Além disso, o representante te entrega 15 páginas de “Termos e Condições” que aparentemente são legais e complexos, e antes que você perceba, ele vai embora com um sorriso no rosto.

No dia seguinte, um engenheiro aparece para instalar dispositivos que monitoram sua atividade na internet para coletar informações como quais programas de TV, filmes, música e rádio são consumidos, acompanhar a temperatura ambiente escolhida em sua casa, quando as luzes são apagadas, registrar chamadas e conexões, acompanhar quais produtos são compradas e com que frequência, monitorar suas viagens de carro, e até mesmo o seu e-mail. Seu parceiro está se assustando com a vigilância que está sendo instalada em sua casa e questiona se essa invasão para ter acesso a um serviço de forma gratuita realmente vale a pena.

Caso esse representante de vendas apareça na sua porta, você marcaria a opção de aceitar?

Ler (entrelinhas)

Quando foi a última vez que você leu uma política de privacidade ou analisou as permissões ao instalar um aplicativo ou criar uma conta para acessar um serviço on-line?

Se você está lendo este post, então talvez você esteja interessado em proteger seus dados pessoais. Mas você provavelmente, assim como eu, sentiu como se estivesse batendo a cabeça em uma enorme parede de tijolos ao tentar fazer com que as pessoas ao seu redor se engajem na proteção da privacidade de suas informações pessoais, ou até mesmo para que vejam que existe um problema sobre o qual elas poderiam fazer algo.

Talvez o fator principal seja o fato de que as pessoas trocam sua privacidade para permanecerem conectadas com sua família e amigos. Ninguém quer se sentir desconectado; portanto, a participação em redes sociais pode ser vista como essencial para a interação social. O lado negativo, como sabemos pelos usuários que denunciam ou pesquisam, é a produção de perfis, a mineração e, em muitos casos, a venda de nossos dados pessoais ou nosso comportamento geral na internet para dar às empresas e organizações a oportunidade de influenciar nossas ações ou pensamentos futuros.

No entanto, o que causa a falta de compromisso é a complexidade e a duração das políticas de privacidade. Em muitos casos, a leitura dessa política pode levar mais de 20 minutos e mesmo assim pode ser necessário contar com um especialista ou um advogado para entender a linguagem e o significado do que é lido. Mesmo que você faça parte de uma minoria potencialmente pequena de pessoas que leem uma política de privacidade, você consegue saber o significado dos dados que estão sendo coletados ao invés de uma lista de quais dados estão sendo coletados?

Ao estudar programação na faculdade, um dos meus professores usou um exemplo bastante inapropriado para transmitir o ponto de que os dados como lista de informações podem não ter sentido até que sejam colocados na ordem correta. Ele escreveu três números no quadro, ordenados do menor para o maior, e perguntou aos alunos com o que se relacionam os números apresentados. Os alunos destacaram várias explicações significativas. Somente quando ele reordenou os números é que ficou claro que eles se relacionavam com as dimensões de uma pessoa. O exercício, apesar de inapropriado, foi resolvido.

Cada pedacinho de dado conta

Cada dado pessoal e individual coletado pode aparecer como uma peça de troca aceitável para acessar um serviço ou usar um produto. O que pode mudar uma opinião, entretanto, é compreender quais informações estão sendo coletadas quando vistas de forma holística.

Imagine se uma política de privacidade declarasse o uso real dos dados pessoais coletados: “Os dados coletados serão usados para identificar se você está em um segmento da sociedade cuja visão política pode ser manipulada, resultando na mudança de sua posição de voto, ou suas ações on-line dão indicadores de que você pode ser facilmente manipulado para assumir mais riscos ao investir, o que poderia resultar em perdas (ou ganhos) financeiros”.

O comentário frequentemente ouvido dos usuários quando eles são advertidos sobre a importância da privacidade é: “Eles já sabem tudo sobre mim, então por que eu deveria me importar? Não é necessariamente o que eles sabem – pode ser mais sobre entender o que pode ser deduzido, previsto, ou como pode ser usado para manipular suas ações ou pensamentos. Se indivíduos que concordam com a coleta de seus dados por uma empresa pudessem ouvir as reuniões internas da equipe de análise de dados sobre como eles podem usar os dados para gerar receita e o que eles sabem holisticamente sobre o proprietário dos dados, seria algo chocante.

Desistimos de mais dados do que percebemos e muitas vezes somos colocados na posição de decidir que a coleta de um único pedaço de dados provavelmente está bem. Fazemos isso quase sempre sem considerar o alcance e o que realmente significa a coleta geral de todos os dados que concordamos em última instância, e como a informação pode ser usada.

Da próxima vez, ao fornecer um pequeno fragmento de dados pessoais a uma empresa, reserve um momento para considerar o contexto do que eles podem saber e se esse pequeno fragmento é o bit que une tudo e cria um perfil completo sobre você, que pode ser usado de uma forma não necessariamente aceitável ou que pode não ser do seu interesse.

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