Outubro marca o Mês da Conscientização em Cibersegurança, uma iniciativa global para reforçar hábitos seguros no ambiente digital. No Brasil, o risco é concreto: segundo o ESET Security Report 2025, 1 em cada 4 empresas já sofreu um ciberataque no último ano, e o país responde por 61% das detecções de trojans bancários na América Latina.
Mas não são só empresas que estão vulneráveis. Existem campanhas massivas de phishing como a que simula pagamentos pendentes de sua conta na Netflix que buscam fisgar o público geral. Qualquer pessoa que use serviços comuns on-line pode ser alvo. Além disso, no Brasil é comum ver contas de redes socias na mira de cibercriminosos.
O impacto sobre os usuários é enorme. No Brasil, os golpes digitais atingem 24% da população com mais de 16 anos nos últimos 12 meses são mais de 40,8 milhões de pessoas que perderam dinheiro por clonagem de cartão, fraudes pela internet ou invasão de contas, como informa o Senado Federal. Já uma pesquisa da fintech Koin, divulgada pelo Correio Braziliense, aponta que 62% dos brasileiros já sofreram alguma tentativa de golpe virtual.
Apesar desse cenário alarmante, ainda existem muitos mitos sobre segurança digital. Essas falsas percepções criam uma sensação ilusória de proteção e justamente por isso nos colocam em risco.
1. "Não sou um alvo, porque não tenho nada de valor"
Muitas pessoas acreditam que ataques cibernéticos acontecem apenas com grandes empresas ou pessoas públicas. A realidade é outra: qualquer dado pessoal tem valor para cibercriminosos, desde informações bancárias até credenciais de e-mail ou redes sociais. No Brasil, golpes digitais atingem milhões de usuários comuns, mostrando que todos podem ser alvo, independentemente de perfil ou relevância online.
A Febraban destacou que o percentual de golpes ou tentativas de golpes aumentou de 33% em setembro de 2024 para 38% em março de 2025 no Brasil. Entre os brasileiros mais afetados estão homens (44%), pessoas com 60 anos ou mais (42%) e indivíduos com ensino superior (41%). Entre os golpes mais comuns apontados pelos brasileiros, continuam em destaque os que envolvem clonagem de cartão, fraudes via Pix e boletos falsos.
Subestimar o risco cria uma falsa sensação de segurança e leva a comportamentos arriscados, como não ativar autenticação multifator, usar senhas fracas ou clicar em links suspeitos. Ataques de oportunidade podem resultar em roubo de dados, clonagem de cartão, invasão de contas ou até extorsão digital.
2. "Meu antivírus me protege contra tudo"
Muita gente pensa que ter um antivírus atualizado é sinônimo de estar protegido. Na prática, o antivírus é uma peça importante da defesa, mas não cobre todos os vetores de ataque. A superfície de risco atual inclui engenharia social, falhas de processo, abuso de privilégios, ataques à cadeia de fornecimento e lacunas de visibilidade operacional coisas que um antivírus sozinho não resolve.
Um exemplo claro no Brasil mostra como problemas de processo podem provocar prejuízos enormes mesmo quando existem controles técnicos: o caso da C&M Software, expôs como brechas em procedimentos, falta de controles e falhas no gerenciamento de terceiros permitiram desvio de recursos e comprometeram a segurança operacional da organização. Isso ilustra que cibersegurança não é só tecnologia, é também processo e governança.
Outro ponto crítico é que muitos ataques exploram credenciais vazadas, fraquezas humanas ou fluxos de autorização inseguros, cenários em que uma solução antivírus não impede a intrusão inicial nem a escalada de acesso. Por isso, a estratégia atual de defesa deve ser em camadas.
A autenticação multifator se destaca como uma defesa de alta eficácia contra sequestro de contas. Estudos de grandes provedores de plataforma mostram que adicionar um segundo fator bloqueia quase todos os ataques automatizados e reduz drasticamente o sucesso de campanhas de phishing em massa. O próprio Google indicou que desafios baseados em dispositivo ou códigos ajudam a impedir 100% de bots automatizados e grande parte das campanhas em massa; e a Microsoft afirma que a adoção de MFA pode impedir mais de 99,9% dos ataques de comprometimento de conta automatizados. Essas evidências reforçam que controlar acesso é tão importante quanto deter malware.
Confiar exclusivamente em antivírus é insuficiente porque muitos incidentes resultam de falhas de processo, lacunas de visibilidade e fraquezas de identidade/autenticação; uma estratégia eficaz exige camadas, governança e controles de acesso robustos.
3. "Minha senha é forte, dá para usar em tudo"
Muitas pessoas acreditam que, se a senha é forte, podem reutilizá-la em vários serviços sem risco. Na prática, essa conduta é altamente perigosa. Criminosos especializados em ataques automatizados, como o credential stuffing, utilizam combinações de e-mail e senha vazadas para tentar acessar outras contas automaticamente. Se a senha for a mesma, o acesso é imediato e silencioso.
Em junho de 2025, um megavazamento de dados expôs 16 bilhões de senhas e credenciais de login de contas da Apple, Google, Facebook, Telegram, GitHub e até serviços governamentais. A descoberta foi feita por pesquisadores da Cybernews, que identificaram 30 conjuntos de dados inéditos, com registros que variam de dezenas de milhões a mais de 3,5 bilhões cada. O Google chegou a recomendar que usuários trocassem suas senhas, enquanto o FBI emitiu alertas sobre o risco de links maliciosos via SMS.
Além disso, a reutilização de senhas torna golpes como phishing e sequestro de contas mais eficazes, porque cibercriminosos podem combinar informações de diferentes serviços para enganar o usuário de forma mais convincente. Mesmo que uma plataforma tenha forte proteção, se a mesma senha for usada em um site com segurança frágil, o risco é replicado.
Outro ponto crítico é que senhas iguais em diferentes plataformas replicam vulnerabilidades. Mesmo que uma plataforma tenha forte proteção, se o mesmo e-mail e senha forem usados em um site com segurança frágil, o risco é o mesmo. A senha mais fraca determina o seu nível de proteção digital.
Portanto, confiar exclusivamente em senhas mesmo fortes e únicas cria uma falsa sensação de segurança e deixa os usuários vulneráveis a invasões, roubo de identidade e fraude financeira. A proteção eficaz exige não apenas senhas robustas, mas uma combinação de autenticação multifator, monitoramento de atividade suspeita e boas práticas de gerenciamento de credenciais.
4. "Meu celular é seguro, só preciso me preocupar com o computador"
Muitas pessoas acreditam que seus smartphones ou tablets estão protegidos por serem dispositivos menores ou mais modernos, e que ataques cibernéticos só atingem computadores. Na realidade, dispositivos móveis são alvos frequentes de golpes sofisticados, e os riscos aumentam à medida que concentramos informações pessoais, financeiras e profissionais neles.
No Brasil, os ataques por SMS estão em ascensão. Uma pesquisa da Serasa Experian revelou que, em março de 2025, o país registrou 1.106.846 tentativas de fraude, o que equivale a uma média de 25 ocorrências por minuto ou uma a cada 2,4 segundos. Além disso, o volume de tentativas de fraude evitadas em maio de 2025 foi de 1.222.550, representando uma tentativa a cada 2,2 segundos. Esses números indicam um aumento significativo nas tentativas de fraude no país, refletindo a crescente sofisticação dos criminosos digitais.
Outro ponto crítico é o vishing, onde criminosos se passam por atendentes de bancos ou empresas para obter informações pessoais ou financeiras. Esse tipo de golpe tem se tornado mais comum, aproveitando-se da confiança das pessoas em ligações telefônicas aparentemente legítimas.
Apesar de a base da maioria desses ataques ser engenharia social, ainda existem riscos adicionais, como malware, aplicativos falsos e exploração de vulnerabilidades de sistemas, que podem comprometer o dispositivo mesmo sem interação direta do usuário.
A ESET também já alertou que dispositivos móveis não estão imunes a ameaças complexas. A empresa identificou, por exemplo, aplicativos falsos que se passavam por cheats de jogos populares, como "Cheats for Pou" e "Guide for Subway", que foram instalados mais de 200.000 vezes em um único mês. Além disso, malwares bancários para Android tiveram aumento de 428% em 2021, seguidos por casos de spyware e adware nos anos seguintes.
Portanto, confiar apenas na percepção de que "smartphones são seguros por natureza" cria uma falsa sensação de proteção. A defesa eficaz em dispositivos móveis envolve senhas fortes, autenticação multifator, cuidado com apps e links suspeitos, atualizações regulares e atenção a chamadas telefônicas inesperadas.
5. "Cibersegurança é responsabilidade apenas do setor de TI"
Muitas pessoas ainda acreditam que a segurança digital é tarefa exclusiva do setor de TI, mas, na realidade, todos têm um papel essencial na proteção de dados e sistemas. Cada usuário que adota boas práticas contribui para fortalecer a segurança de toda a organização ou comunidade on-line. Hábitos simples, como verificar links antes de clicar, manter senhas fortes e únicas, habilitar autenticação multifator e reportar atividades suspeitas, criam barreiras eficazes que complementam tecnologias e políticas de TI.
Quando todos se engajam, a conscientização coletiva se torna uma defesa poderosa, capaz de prevenir golpes, fraudes e invasões, protegendo informações pessoais, corporativas e a comunidade digital como um todo. Quanto mais cada pessoa age de forma consciente, mais resiliente se torna o ecossistema digital. Lembre-se: cibersegurança é responsabilidade de todos, e pequenos hábitos fazem uma grande diferença.




